Perspectivas decoloniais do cuidado pelo olhar de uma farmacêutica clínica: autoetnografando escrevivências ao longo de duas décadas de atenção farmacêutica

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Universidade Federal de Minas Gerais

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Tese de doutorado

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Primeiro orientador

Membros da banca

Mariana Martins Gonzaga do Nascimento
Grazielli Cristina Batista de Oliveira
Maria Gabrielle de Lima Rocha

Resumo

O cuidado centrado na pessoa constitui o eixo central do Gerenciamento da Terapia Medicamentosa. Contudo, tendo em vista a lógica tecnicista originada pelo modelo biomédico e fortalecida por lentes culturais preconceituosas, tais como o racismo e a misoginia pode-se perceber que o cuidado não é para todos. Em busca de justiça social para o tratamento destinado às pessoas, essa pesquisa parte de uma perspectiva decolonial, que entende que as heranças do período colonial ainda habitam o imaginário coletivo, fazendo com que as ideologias racistas, classistas, pratriarcais e aquelas relacionadas aos direitos sexuais e reprodutivos direcionem sentimentos, pensamentos e atitudes de profissionais de saúde. Essa pesquisa qualitativa tem como objetivo compreender aspectos da educação farmacêutica no sentido de formar profissionais de saúde melhor qualificados para cuidar de pessoas a partir das suas diferenças. Dessa forma foram desenvolvidas atividades pedagógicas, incluindo a elaboração de uma disciplina, um minicurso e um workshop, a partir de uma curadoria decolonial/contracolonial e das escrevivências da autora como farmacêutica, mulher negra, professora e paciente. Múltiplas perspectivas contribuíram para a escolha da autoetnografia como metodologia que origina essa pesquisa, por permitir que a pesquisadora partisse da própria experiência (auto) para acessar aspectos culturais (etno) e que serão descritos (grafia) na medida em que se conectam com a vida de outras pessoas. O contato da autoetnografia e teoria decoloniais permitiu o empoderamento epistemológico que permitiu acessar a escrevivência como operador metodológico. Dessa forma além da fala em primeira pessoa o uso da escrevivência permite um lugar de fala epistemológico que reivindica justiça social através da busca por igualdade racial denunciando o racismo. Nesta pesquisa, as escrevivências de uma farmacêutica clínica negra foram utilizadas para oferecer uma das bases para a oferta da disciplina intitulada: Decolonizando o cuidado sob a perspectiva do gênero, da raça e da sexualidade. A escrevivência foi efetiva para mostrar e sensibilizar os educandos sobre as rotas que o racismo traça nos ambientes de saúde. A educação alicerçada nos princípios de Paulo Freire trouxe oportunidade para a ativa participação de um corpo discente formado em sua maioria por alunos de baixa renda, mulheres e negros e Lgbtquiap+. Os resultados mostram que o ensino que alia pensamento crítico, autorreflexividade e educação como prática de liberdade estimulados pelas teorias decoloniais/contracoloniais estimulam a aprendizagem e o potencial para transformar a realidade, o que foi o principal resultado da disciplina: o giro decolonial resultante da ação de reabertura do DA de farmácia, promovido pelos estudantes determinados a lidar com problemas como a falta de representatividade. O caminho para formar farmacêuticos melhor preparados para o cuidado em saúde decolonial passa por uma educação que valoriza os saberes subalternizados, denuncia a necropolítica, a dificuldade de permanecer no ensino superior, a fome e as violências sobrepostas experienciadas no dia a dia. Esse processo chamado Letramento sociocrítico pode ser entendido como a habilidade de identificar as violências interseccionais para prover um cuidado que não as intensifique, que enxerguem as especificidades para além da superficialidade, que vise combatê-las através do exercício do cuidado farmacêutico.

Abstract

Assunto

Palavras-chave

Cuidado, Antirracismo, Decolonialidade, Educação farmacêutica

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