Decolonialidade e divulgação científica: entre teoria e prática em um projeto de extensão com crianças
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Editor
Universidade Federal de Minas Gerais
Descrição
Tipo
Tese de doutorado
Título alternativo
Primeiro orientador
Membros da banca
Irlan von Linsingen
Luana Pereira Leite Schetino
Juliana Carvalho Tavares
Denise Nacif Pimenta
Luana Pereira Leite Schetino
Juliana Carvalho Tavares
Denise Nacif Pimenta
Resumo
Universidade das Crianças (UC) é um termo, que vem sendo utilizado para designar um formato
possível de projetos de extensão com crianças, e tornou-se proeminente durante a última
década, quando um grande número de universidades no mundo todo iniciou, programas de
engajamento científico para crianças, com idades entre 4 e 14 anos. O projeto de divulgação
científica intitulado Universidade das Crianças da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tem uma história de mais de 13 anos de trabalho e pesquisa na área de divulgação
científica para/com o público infantil. Com uma equipe bastante diversificada, o projeto tem
contado com a colaboração de professores de diversas áreas do conhecimento, de alunos de
pós-graduação e de graduação oriundos de diversos cursos, principalmente da Comunicação
Social, Belas Artes e Medicina. A metodologia utilizada pelo projeto é própria e foi construída
ao longo de seus anos de existência e se baseia na pedagogia freireana e na teoria da
“aprendizagem por livre escolha”, que possibilitem a construção de um conhecimento de acordo
com a realidade de cada criança e de cada adulto participante, que traz consigo seus interesses
e suas experiências. No âmbito do UC-UFMG, perguntas e questionamentos que as crianças
nos apresentam norteiam todas as práticas, incluindo oficinas, produção de curtas de animação,
programas de rádio e livros. Se inicialmente a abordagem das UCs era bastante tradicional, no
que diz respeito à comunicação, reflexões importantes sobre a percepção de infância e de
criança têm subsidiado mudanças nas práticas com esse público e apontado para outras
possibilidades de diálogo. A partir de uma abordagem menos adultocentrada, essa pesquisa teve
por objetivo realizar análises das relações que acontecem nas oficinas com as crianças, e tendo
como suporte teórico os estudos decoloniais e a sociologia da infância, levantando
possibilidades de reflexões que possam contribuir para o campo da Divulgação Científica,
principalmente com crianças. Os dispositivos metodológicos utilizados para coleta de dados
foram a observação participante na perspectiva da investigação ação, através de registro em
diário de campo com posterior expansão de notas e também os registros em vídeos, fotos e
desenhos. As oficinas foram planejadas a partir de perguntas espontâneas das crianças sobre o
tema corpo humano, que foram previamente coletadas. Realizamos um total de 16 oficinas, com
2 grupos de crianças de idades diferentes, um grupo com idade de 5 à 6 anos, e outros grupo
com idades de 9 à 12 anos, o grupo de mediadores, contou com 5 alunos de graduação, 3 alunos
de pós-graduação, e a coordenadora do projeto, as oficinas foram realizadas nas escolas e no
Núcleo de Educação e Comunicação em Ciências da Vida (NEDUCOM), o período de
realização dos estudos foi no 1º semestre de 2016 e 2º semestre de 2017. A partir de uma
“leitura” flutuante dos vídeos foi identificado algumas condições de decolonialidade, sendo
elas: visibilização das diversidades; respeito às singularidades; valorização da história e/ou da
cultura da criança; práticas e falas de resistência e de conflitos. E através da interpretação da
pesquisadora, analisamos as palavras ou expressões que traduziam, as interações, forças,
sentimentos e emoções dos participantes. De acordo com as orientações prévias passadas aos
mediadores, as crianças deveriam ter liberdade para se deslocar no ambiente, para utilizar o
tempo e para selecionar e manusear os objetos. A partir da análise de vídeos documentais de
encontros com as crianças observamos que elas resistem por diversos meios, que não
necessariamente passam pela linguagem oral, mas por outros meios tais como movimentos
corpóreos, transgressões no modo de se utilizar o espaço, o tempo e os objetos. Partiu-se do
entendimento de resistência como desobediência epistêmica e/ou transgressão do processo de
construção do saber. Segundo os estudos decoloniais, resistir implica não somente em lutas,
mas também em construção e criação de algo novo, mudança de paradigma, de padrões, resistir
a tudo aquilo que possa ser opressor. A partir de movimentos de resistência, as crianças dão
visibilidade a seus corpos, saberes e subjetividades, que se encontram obscurecidos pelo adultocentrismo em ambientes escolarizados e opressores. Os mediadores procuravam evitar
intervenções que pudessem cercear a liberdade de escolhas ou que pudessem colocar a criança
na invisibilidade e/ou na passividade, caracterizando um processo de heteronomia. Se por um
lado o(a) mediador(a) tendia na maior parte do tempo a respeitar as escolhas das crianças, por
outro ele(a) não deixava de marcar seu espaço, de estabelecer “combinados” e de cuidar para
que cada criança respeitasse também o desejo “do outro”. Da análise desses resultados
emergiram reflexões sobre divulgação científica com crianças, com potencial relevância na
orientação de práticas permeadas pela autonomia e liberdade de escolhas, e nesse estudo
também, exemplos de resistência, autonomia, transdisciplinaridade no contexto do projeto de
extensão UC-UFMG serão apresentados e discutidos à luz dos estudos decoloniais.
Abstract
Children's University (UC) is a term that has been used to designate a possible format for
outreach projects with children, and has become prominent during the last decade, when a large
number of universities worldwide have started, engagement programs for children aged 4 to 14
years. The scientific dissemination project entitled University of Children of the Federal
University of Minas Gerais (UC-UFMG), has a history of more than 13 years of work and
research in the area of scientific dissemination to / with children. With a highly diversified team,
the project has had the collaboration of professors from different areas of knowledge, graduate
and undergraduate students from different courses, mainly in Social Communication, Fine Arts
and Medicine. The methodology used by the project is its own and was built throughout its
years of existence and is based on Freire's pedagogy and on the theory of “free choice learning”,
which enable the construction of knowledge according to the reality of each child and of each
participating adult, who brings their interests and experiences with them. Within the scope of
the UC-UFMG, questions and inquiries that children present to us guide all practices, including
workshops, production of animation shorts, radio programs and books. If initially the UCs
approach was quite traditional, with regard to communication, important reflections on the
perception of childhood and children have subsidized changes in practices with this audience
and pointed to other possibilities for dialogue. From a less adult-centered approach, this
research aimed to carry out analyzes of the relationships that take place in the workshops with
children, and having as theoretical support decolonial studies and the sociology of childhood,
raising possibilities for reflections that may contribute to the field of Scientific Dissemination,
mainly with children. The methodological devices used for data collection were participant
observation from the perspective of action research, through recording in a field diary with
subsequent expansion of notes and also records in videos, photos and drawings. The workshops
were planned based on spontaneous questions from children about the human body theme,
which were previously collected. We conducted a total of 16 workshops, with 2 groups of
children of different ages, a group aged 5 to 6 years, and other groups aged 9 to 12 years, the
group of mediators, had 5 undergraduate students, 3 graduate students, and the project
coordinator, the workshops were held in schools and at the Education and Communication
Center in Life Sciences (NEDUCOM), the period for conducting the studies was in the 1st
semester of 2016 and the 2nd semester of 2017. From a floating “reading” of the videos, some
conditions of decoloniality were identified, namely: visibility of diversities; respect for
singularities; appreciation of the child's history and / or culture; practices and speeches of
resistance and conflicts. And through the researcher's interpretation, we analyzed the words or
expressions that translated, the interactions, forces, feelings and emotions of the participants.
According to previous guidelines given to mediators, children should be free to move around
the environment, to use time and to select and handle objects. From the analysis of documentary videos of meetings with the children, we observe that they resist by various means, which do
not necessarily pass through oral language, but by other means such as bodily movements,
transgressions in the way of using space, time and objects. It started from the understanding of
resistance as epistemic disobedience and / or transgression of the knowledge construction
process. According to decolonial studies, resisting implies not only struggles, but also the
construction and creation of something new, a change in paradigm, patterns, resisting
everything that can be oppressive. From resistance movements, children give visibility to their
bodies, knowledge and subjectivities, which are obscured by adult-centeredness in school
environments and oppressors. Mediators sought to avoid interventions that could restrict
freedom of choice or that could put the child in invisibility and / or passivity, characterizing a
process of heteronomy. If, on the one hand, the mediator tended to respect the children's choices most of the time, on the other hand, he / she did not fail to mark his space, to establish “agreed
upon” and to take care that each child also respected the desire of “the other”. From the analysis
of these results, reflections on scientific dissemination with children emerged, with potential
relevance in guiding practices permeated by autonomy and freedom of choice, and in this study
also, examples of resistance, autonomy, transdisciplinarity in the context of the UC-UFMG
extension project will be presented and discussed in the light of decolonial studies.
Assunto
Biologia celular, Extensão universitária, Criança, Divulgação científica
Palavras-chave
Decolonização, Universidade das Crianças, Projeto de extensão, Divulgação científica