Insuficiência hepática aguda na febre amarela: experiência clínico-cirúrgica de um centro transplantador brasileiro no enfrentamento da epidemia do ano de 2018
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Universidade Federal de Minas Gerais
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Tipo
Tese de doutorado
Título alternativo
Acute liver failure in yellow fever: clinical-surgical experience of a Brazilian transplant center facing the 2018 epidemic
Primeiro orientador
Membros da banca
Luiz Augusto Carneiro D'Albuquerque
Luciana Costa Faria
Wanessa Trindade Clemente
Paula Vieira Teixeira Vidigal
Luciana Costa Faria
Wanessa Trindade Clemente
Paula Vieira Teixeira Vidigal
Resumo
Introdução: A Insuficiência Hepática Aguda (IHA) é uma condição grave caracterizada por rápida
deterioração da função hepática em indivíduos sem doença hepática pré-existente, e o transplante hepático
(TH) é o tratamento de maior impacto no seu tratamento. A febre amarela (FA) é uma doença infecciosa
endêmica de áreas florestais na África e América com altos índices de mortalidade. Trata-se de doença de
comprometimento multi-sistêmico, porém o fígado é o órgão mais afetado, o que torna a IHA uma causa
comum de óbito. O estado de Minas Gerais, no Brasil, foi gravemente afetado por uma grave epidemia de
FA entre junho de 2017 e 2018. Neste contexto, pacientes que desenvolveram IHA foram avaliados para a
realização de TH e, de forma pioneira no mundo, os primeiros TH em FA foram realizados. Objetivos:
Descrever uma série de casos de pacientes com FA admitidos no ano de 2018 no Hospital Felício Rocho
(HFR), um hospital terciário de referência em transplante no estado de Minas Gerais, Brasil. Métodos: HFR
foi nomeado como referência para realizar TH em pacientes com IHA por FA e elaborou protocolo:
parâmetros para indicação de TH, plasmaférese, uso compassivo de medicamentos antivirais, avaliação da
coagulopatia, abordagem per- e pós-operatória dos pacientes. O banco de dados consistiu de informações
de pacientes com FA confirmada após autorização do Comitê de ética do HFR. Resultados: Foram
admitidos 14 pacientes com FA confirmada. Oito desenvolveram IHA com manifestações neurológicas com
evolução para óbito ou IHA com necessidade de transplante. A mediana (com intervalo interquartil) dos
exames laboratoriais desse grupo revelou: bilirrubinas (pico) 5,06 mg/dl (2,8-8,3), RNI 2,9 (1,4- >9,0); fator
V 22% (11-29%). O intervalo médio entre os sinais neurológicos iniciais e escala de coma de Glasgow <8
foi de 20 horas (1-60h), e até o óbito 45,5 horas (10-67h). O intervalo médio icterícia-EH foi de seis dias.
Quatro pacientes foram a óbito sem TH, dois por choque séptico e dois por falência de múltiplos órgãos.
Quatro pacientes foram submetidos a TH. A sobrevida foi de 50% em cinco anos de seguimento. O critério
de Clichy modificado (fator V (<50%) e EH graus I/II) foi utilizado nos casos de sucesso. Os dois
sobreviventes apresentaram complicações infecciosas, como pneumonia, sepse de foco indeterminado e
infecção pelo CMV. Foi realizada biopsia hepática dos pacientes transplantados no 2º DPO durante
abordagem de hemorragia, tendo-se constatado recidiva viral sobre o enxerto em ambos. O paciente com
maior marcação viral à imuno-histoquímica apresentou maior gravidade nos achados histológicos e evoluiu
para óbito; em contraste, o paciente que sobreviveu estava em uso compassivo de sofosbuvir e apresentou
menor quantidade de vírus e no parênquima e lesão menos intensa no enxerto. O outro paciente que
sobreviveu ao TH foi submetido a plasmaférese e também fez uso de sofosbuvir. Discussão: Os critérios
tradicionais de indicação de TH – King´s College e Clichy-Villejuif – foram mau preditores de evolução de
pacientes com IHA por FA. Por outro lado, os critérios de “Clichy modificado” foram úteis para indicar o TH
visto que incluíram o fator V (mais sensível) na avaliação da coagulopatia e aceitaram graus mais precoces
de EH. As manifestações neurológicas na IHA por FA foram preditoras de mortalidade, mas com
características peculiares, sugerindo que outros mecanismos possam estar associados à disfunção
hepática. A reinfecção do enxerto pelo vírus da FA foi universal, sugerindo associação entre a gravidade
da lesão hepática e a maior carga viral. Os dois pacientes que sobreviveram pós-TH fizeram uso de
sofosbuvir, o que pode estar relacionado ao seu efeito anti-viral. A despeito de uma elevada mortalidade,
a experiência revelou-se capaz de sugerir modificações nas condutas convencionais que podem impactar
positivamente na sobrevida de pacientes transplantados por FA.
Abstract
Introduction: Acute Liver Failure (ALF) is a serious condition characterized by rapid deterioration of liver
function in individuals without pre-existing liver disease, and liver transplantation (LT) is the treatment with
the greatest impact in the last decades. Yellow fever (YF) is an infectious disease endemic to forest áreas
in Africa and America with high mortality rates. It is a disease with multi-system involvement, but the liver is
the most affected organ, which makes ALF a common cause of death. The state of Minas Gerais, in Brazil,
was seriously affected by a serious YF epidemic between June 2017 and 2018. In this context, patients who
developed ALF were evaluated for LT and, in a pioneering way in the world, the first LT in FA were
performed. Objectives: To describe a case series of patients with YF admitted in 2018 at Hospital Felício
Rocho (HFR), a tertiary referral hospital for transplantation in the state of Minas Gerais, Brazil. Methods:
HFR was appointed as a reference for performing LT in patients with ALF due to YF and developed a
protocol: parameters for indicating LT, plasmapheresis, compassionate use of antiviral medications,
assessment of coagulopathy, per- and postoperative approach to patients. The database consisted of
information from patients with confirmed YF after authorization from the HFR Ethics Committee. Results:
14 patients with confirmed YF were admitted. Eight developed ALF with neurological manifestations that led
to death or ALF requiring transplantation. The median (with interquartile range) of laboratory tests in this
group revealed: bilirubin (peak) 5.06 mg/dl (2.8-8.3), INR 2.9 (1.4->9.0); factor V 22% (11-29%). The average
interval between initial neurological signs and Glasgow Coma Scale <8 was 20 hours (1-60h), and until
death 45.5 hours (10-67h). The average jaundice-HE interval was six days. Four patients died without LT,
two from septic shock and two from multiple organ failure. Four patients underwent LT. Survival was 50% at
five years of follow-up. The modified Clichy criterion (factor V (<50%) and HE grades I/II) was used in
successful cases. The two survivors presented infectious complications, such as pneumonia, sepsis of
undetermined focus and CMV infection. A liver biopsy was performed on the transplanted patients on the
2nd POD during the hemorrhage approach, and viral recurrence was found on the graft in both. The patient
with the highest viral staining on immunohistochemistry showed greater severity in histological findings and
died; in contrast, the patient who survived was on compassionate use of sofosbuvir and had lower amounts
of virus in the parenchyma and less intense damage to the graft. The other patient who survived LT
underwent plasmapheresis and also used sofosbuvir. Discussion: The traditional criteria for indicating LT
– King's College and Clichy-Villejuif – were poor predictors of the evolution of patients with ALF due to YF.
On the other hand, the “modified Clichy” criteria were useful to indicate LT as they included factor V (more
sensitive) in the assessment of coagulopathy and accepted earlier degrees of HE. Neurological
manifestations in ALF due to AF were predictors of mortality, but with peculiar characteristics, suggesting
that other mechanisms may be associated with liver dysfunction. Reinfection of the graft by the YF virus was
universal, suggesting an association between the severity of liver injury and higher viral load. The two
patients who survived after LT used sofosbuvir, which may be related to its anti-viral effect. Despite a high
mortality rate, the experience proved capable of suggesting changes in conventional procedures that could
positively impact the survival of patients transplanted due to YF.
Assunto
Febre Amarela, Falência Hepática Aguda, Transplante de Fígado, Hepatite, Sofosbuvir
Palavras-chave
febre amarela, insuficiência hepática aguda, transplante hepatico, hepatite fulminante