Da insurgência à ressurgência: uma cartografia do Carnaval de rua de Belo Horizonte entre 2009 e 2020
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Editor
Universidade Federal de Minas Gerais
Descrição
Tipo
Tese de doutorado
Título alternativo
From insurgency to resurgency: a cartography of Belo Horizonte's Street Carnival between 2009 and 2020
Primeiro orientador
Membros da banca
Carlos Fernando Ferreira da Cunha Junior
Cesar Teixeira Castilho
Francivaldo José da Conceição Mendes
Silvio Ricardo da Silva
Cesar Teixeira Castilho
Francivaldo José da Conceição Mendes
Silvio Ricardo da Silva
Resumo
A presente investigação tem como objetivo compreender as transformações socioespaciais
ocorridas no carnaval de rua de Belo Horizonte entre 2009 e 2020. O estudo busca compreender
os desdobramentos históricos e geográficos da festa carnavalesca como um objeto transversal
nesse contexto longitudinal, com foco na apropriação do espaço urbano e nas relações de poder
que permeiam o território da cidade. Para alcançar seu objetivo, a pesquisa empregou uma
triangulação metodológica, combinando revisão bibliográfica, pesquisa documental e pesquisa
de campo. A pesquisa documental analisou relatórios oficiais da Prefeitura de Belo Horizonte
(Belotur), infográficos, estudos do Observatório do Turismo de Minas Gerais, decretos
municipais e registros de eventos de defesa social (REDS). A pesquisa de campo consistiu em
entrevistas narrativas com lideranças de dezesseis blocos de rua, cujos discursos e percepções
foram submetidos à análise temática com o auxílio do software ATLAS.ti. A elaboração de
mapas temáticos por meio de geoprocessamento complementou a análise espacial. As
categorias de análise foram estruturadas em torno da relação com o poder público, o espaço e a
cidade, e o perfil dos blocos, segmentadas nos períodos "antes de 2009", "2009 a 2012" e "2012
a 2020". Os resultados revelam que, antes de 2009, Belo Horizonte era percebida como uma
cidade "sem Carnaval", mas um conjunto de fatores como a redemocratização, a estabilização
econômica e políticas culturais (ex: FIT-BH, Pontos de Cultura) criou um ambiente propício
para a insurgência das primeiras iniciativas. Os primeiros blocos (2009-2012) surgiram de uma
geração de jovens universitários de classe média, com forte engajamento político e foco na
apropriação do espaço público. O Decreto nº 13.798/2009, que proibia eventos na Praça da
Estação se desdobrou em resposta social que culminou no movimento conhecido como "Praia
da Estação", transformando-se em um símbolo da luta por direito a cidade e se conectou
diretamente com os primeiros anos do Carnaval de Rua. A partir de 2013, o Carnaval de Belo
Horizonte experimentou uma "ressurgência" exponencial, com crescimento massivo de foliões,
blocos e ambulantes, conforme dados da Belotur. Essa fase foi marcada pela institucionalização
da festa, com a Prefeitura buscando assumir um papel central na organização e captação de
patrocínios, o que gerou tensões e disputas, como a "revolução da Catuaba" contra monopólios
comerciais. A festa impulsionou a "carnavalização dos espaços", influenciando outros
movimentos urbanos (ex: CURA, A Rua é Nossa) e promovendo uma nova vitalidade urbana e
senso de pertencimento. A tese identifica quatro "gerações" de blocos: a primeira, "Carnaval de
rua e de luta", focada na contestação política; a "sonoriza", que buscou profissionalização
musical e uso de trios elétricos; a "identitária", surgida de demandas por representatividade
(racial, LGBTQIA+) e diversificação musical; e a "capital", com um viés mais comercial. O
crescimento da festa também impulsionou a "musicalização da cidade", com a formação de
milhares de percussionistas e a consolidação de uma cadeia produtiva do Carnaval. Em
conclusão, o Carnaval de rua de Belo Horizonte se transformou de um movimento insurgente
em um fenômeno complexo e multifacetado, que, apesar da crescente institucionalização e
comercialização, mantém suas raízes políticas e sua capacidade de reinvenção. A festa não
apenas reconfigurou o espaço urbano, mas também se tornou um catalisador de debates sociais,
um motor econômico e um espaço de "formação cidadã", demonstrando a vitalidade e a
capacidade de adaptação da cidade e de seus sujeitos.
Abstract
The present investigation aims to understand the socio-spatial transformations that occurred in
the street Carnival of Belo Horizonte between 2009 and 2020. The study seeks to comprehend
the historical and geographical developments of the Carnival celebration as a transversal object
within this longitudinal context, focusing on the appropriation of urban space and the power
relations that permeate the city's territory. To achieve its objective, the research employed a
methodological triangulation, combining bibliographic review, documentary research, and field
research. The documentary research analyzed official reports from the Belo Horizonte City Hall
(Belotur), infographics, studies from the Minas Gerais Tourism Observatory, municipal
decrees, and public safety event records (REDS). The field research consisted of narrative
interviews with sixteen leaders of blocos de rua (street Carnival groups), whose discourses and
perceptions were subjected to thematic analysis with the aid of ATLAS.ti software. The
elaboration of thematic maps through geoprocessing complemented the spatial analysis. The
categories of analysis were structured around the relationship with public authorities, space and
the city, and the profile of the blocos, segmented into the periods "before 2009," "2009 to 2012,"
and "2012 to 2020." The results reveal that, prior to 2009, Belo Horizonte was perceived as a
city "without Carnival," but a set of factors such as redemocratization, economic stabilization,
and cultural policies (e.g., FIT-BH, Pontos de Cultura) created a conducive environment for the
insurgency of the first initiatives. The initial blocos (2009-2012) emerged from a generation of
middle-class university students with strong political engagement and a focus on the
appropriation of public space. Decree No. 13,798/2009, which prohibited events in Praça da
Estação, led to a social response that culminated in the movement known as "Praia da Estação,"
transforming into a symbol of the struggle for the right to the city and directly connecting with
the early years of the Street Carnival. From 2013 onwards, Belo Horizonte's Carnival
experienced an exponential "resurgence," with a massive growth in revelers, blocos, and street
vendors, according to Belotur data. This phase was marked by the institutionalization of the
celebration, with the City Hall seeking to assume a central role in organizing and attracting
sponsorships, which generated tensions and disputes, such as the "Catuaba revolution" against
commercial monopolies. The festival propelled the "carnivalization of spaces," influencing
other urban movements (e.g., CURA, A Rua é Nossa) and promoting new urban vitality and a
sense of belonging. The thesis identifies four "generations" of blocos: the first, "Street and
Struggle Carnival," focused on political contestation; the "Sonorizing" generation, which
sought musical professionalization and the use of trio elétricos (sound trucks); the "Identity-
based" generation, arising from demands for representation (racial, LGBTQIA+) and musical
diversification; and the "Capital" generation, with a more commercial bias. The growth of the
festival also boosted the "musicalization of the city," with the training of thousands of
percussionists and the consolidation of a Carnival production chain. In conclusion, Belo
Horizonte's street Carnival transformed from an insurgent movement into a complex and
multifaceted phenomenon that, despite increasing institutionalization and commercialization,
maintains its political roots and capacity for reinvention. The festival not only reconfigured
urban space but also became a catalyst for social debates, an economic engine, and a space for
"citizenship building," demonstrating the vitality and adaptability of the city and its inhabitants.
Assunto
Blocos carnavalescos - Belo Horizonte (MG), Espaço urbano - Aspectos sociais, Carnaval
Palavras-chave
Carnaval de Rua, Blocos de Carnaval, Belo Horizonte, Lazer